♫ Meshell Ndegeocello, Cat Power - Don't You Want Me (with Cat Power)

Meshell Ndegeocello Synonym Album Cover

Album: Synonym.

Ano: 2026.

Renato Nunes

Renato Nunes

Há uma coisa que Meshell Ndegeocello e Chan Marshall fazem melhor do que quase todo mundo: pegar uma canção consagrada e devolvê-la transformada. Meshell começou tocando baixo em bandas de go-go em Washington, funk pesado seis noites por semana, e aos 17 anos adotou o sobrenome que significa "livre como um pássaro" em suaíli. Foi uma das primeiras artistas assinadas pela Maverick, o selo de Madonna, e em 1993 lançou Plantation Lullabies, disco que apontou o caminho do neo soul de D'Angelo e Erykah Badu. De lá para cá recusou qualquer rótulo, atravessou jazz, funk, reggae, folk e rock, e levou o primeiro Grammy de Melhor Álbum de Jazz Alternativo já entregue, pelo The Omnichord Real Book. Chan Marshall, que assina como Cat Power, construiu boa parte da própria obra revisitando o repertório de outros artistas, de The Covers Record ao projeto em que reconstitui nota a nota o show de Bob Dylan no Royal Albert Hall de 1966, apresentado no C6 Fest de 2024. As duas agora se encontram em Synonym, terceiro álbum de Meshell pela Blue Note, previsto para 2 de outubro. A premissa é simples e ambiciosa: pegar clássicos que todo mundo conhece e refazê-los como duetos, num elenco que passa por Chaka Khan, Brandi Carlile, ANOHNI, Moses Sumney, Lianne La Havas e Bill Callahan.

O encontro mais surpreendente do disco é "Don't You Want Me (with Cat Power)". O original do Human League, de 1981, é um dos hinos de término mais gelados dos anos 80, todo erguido em sintetizadores cortantes, e ajudou a abrir a porta para a invasão britânica que a MTV promoveria em seguida. A letra encena uma separação em tom de confronto: um homem se gaba de ter tirado uma garçonete de trás do balcão e transformado ela em estrela, e se recusa a aceitar que ela está indo embora. Meshell reconstrói a canção do alicerce. Baixa o andamento, troca o gelo dos teclados por sopros quentes e converte a canção num reggae lento e suado. O detalhe mais bonito é técnico: aquele riff de teclado que é a assinatura da música, ela toca no baixo. Depois vem a virada de sentido. Com duas mulheres revezando os versos, a mesma história ganha outra camada, e o que era um confronto soa como duas pessoas olhando para a mesma relação de lados opostos. Onde o original era discussão, aqui virou conversa.

Renato Nunes

Sobre Renato Nunes

Paraibano de João Pessoa apaixonado por música.

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