♫ Dahi, Kendrick Lamar, Amber Mark - How To Pray

Album: Black Boy (Alternative).
Ano: 2026.
"Money Trees", de Kendrick Lamar. "Worst Behavior", de Drake. "No Role Modelz", de J. Cole. "Self Care", de Mac Miller. Quem acompanha hip-hop conhece todas de cor, e quase ninguém sabe que saíram das mãos do mesmo homem. Dacoury Natche, o Dahi, construiu em silêncio boa parte do esqueleto do rap dos últimos quinze anos, e ainda levou um Grammy por "A Lot", de 21 Savage. Ao contrário dos colegas que gravam o próprio nome no início de cada batida, ele nunca se anunciou. Preferiu ser o arquiteto invisível. Em 2026, depois de quinze anos nos créditos de outros artistas, resolveu assinar a capa. Black Boy (Alternative), o disco de estreia, ele define em duas palavras: Black Radiohead. É uma carta ao garoto que foi, cruzando o hip-hop e o R&B da criação com o rock dos anos 90 e o soul da África Ocidental da herança paterna, e convocou uma lista de convidados que envergonharia gravadora grande: Childish Gambino, Vince Staples, Moses Sumney, Ravyn Lenae, Fousheé. Mas o encontro que todo mundo esperava era outro. Kendrick Lamar, parceiro desde "Money Trees" e dono de "Loyalty", a faixa em que Dahi cantou pela primeira vez, de volta ao modo introspectivo. E Amber Mark, cantora de R&B de voz aveludada, que já batizou um EP em português, Conexão, e nunca escondeu a queda pela música brasileira.
"How To Pray" é a terceira faixa do disco e o single que o apresentou ao mundo. Sobre um violão de sotaque brasileiro e uma produção cheia de curvas, Kendrick e Amber Mark não trocam versos, eles cantam juntos, um deslizando sobre o outro em melodia. O assunto é confiança, vulnerabilidade, amor, e a letra faz um gesto ousado: trata chamar o nome de quem se ama e chamar Deus como o mesmo ato. Kendrick aparece contido, quase sussurrando, naquela zona confessional de que a crítica sentia saudade. Não é uma batida de rap, e é justamente fora dela que ele costuma render melhor. A jogada mais bonita, porém, está no clipe, dirigido por Mez. Filmado em preto e branco, ele foi cortado em duas metades verticais, feitas para rodar ao mesmo tempo em dois celulares diferentes. Cada tela segue um ponto de vista. Só quando os aparelhos ficam lado a lado a imagem se completa: o braço de um violão ao lado do corpo de uma cobra, o corpo do violão ao lado do corpo de uma mulher, formas iguais em coisas que não deveriam se parecer. Para ver a história inteira, você precisa de outra pessoa. É uma música sobre estar junto, e um clipe que só funciona a dois.
